Há dias venho pensando em como compartilhar aqui minha vivência sobre um assunto que talvez muitos dos leitores já tenham 'experimentado'.
Logicamente olhar para a vida do outro, seja ele conhecido ou amigo, pode parecer confortável, estável porque muitas vezes  a pessoa não externa muito o que vive, se mantem firme, intacto (por fora).
Sua vida pode estar numa fase boa, de maré calma, na paz. Tudo fluindo normalmente, mas você se esquece de agradecer por isso.
Até que um belo dia, as coisas começam a mudar.
Eu, sagitariana, alto astral, bem humorada, de bem com a vida sem nunca ter dependido de médico nem medicamentos vi a vida brincar comigo.
As coisas vinham mudando há tempo, eu que não reparava. Mas é assim mesmo.
Este 2015 tem sido pesado. Na virada de 2014 para 2015 os desejos que fiz, nenhum se realizou. Foi o oposto.
Explico porquê: Os desejos são sempre de um ano bom, com saúde, paz, amor e que as finanças sejam prósperas. Que no meu caso, onde namorava, pudesse ter a evolução da relação uma vez que após longo tempo de solterice acreditava ter encontrado o 'príncipe' que colocaria o sapatinho no meu pé e daí... felizes para sempre. Janeiro uma tia - aquela parceirona, festeira, com boa saúde - sofre um AVC Hemorrágico fatal. Primeira perda.
O relacionamento fluía bem até que na metade de Fevereiro ele começou a não querer mais. Não acreditar mais. Começou a 'DESamar'. Sim, existe isso. Por suposições descabidas, teve atitudes estupidas. Depois de uma longa conversa, tudo se restabeleceu. Quinze dias depois, descubro (sozinha) que meu pai estava com câncer, Gleason 8. Demorei uma semana para contar aos meus pais, não sabia de que maneira 'amena' poderia fazer isso mas, encontrei uma saída. Entrados dezessete dias de março o príncipe 'aquele' me abandona, dizendo não conseguir confiar e mim. O sofrimento que já vinha sendo pesado, torna-se um pouco mais árduo. Não conseguia discernir em quê eu mais pensava: como lidar com um câncer ou como lidar com o abandono, com a falta de amor e humanidade do príncipe. Feito o comunicado ao meu querido pai era hora de seguir na busca por alternativas de cura. Dada a largada para a maratona de exames, consultas, internação e tratamento. Abril chegou e mais uma tia, faleceu. Partida precoce.
Segue a luta. Os resultados apresentados nos exames do meu pai nos fez decidir pela retirada do câncer. Data da cirurgia decidia. Coração a mil (e em mil pedaços...), com toda esperança e fé que me mantinha viva, sentia medo. Mãe e irmão, sempre presentes. Mas por sempre ter sido a parte mais 'dura' de abalar na família, acabei segurando a barra. O sofrimento me corroía, fui perdendo peso (7 kg), não me alimentava, não tinha fome. Antidepressivos.
Acordei naquela segunda-feira apegada à ideia de ficar mais tempo na cama. O dia de junho, trazia consigo ainda o frio da madrugada e o despertador cumpriu bem seu papel de algoz. Daí alguns instantes, lá estava eu dando entrada na internação do paizão (que não deixava transparecer, mas tinha voltado a ter 10 anos de idade...). Subimos as escadas até o segundo andar e viramos à direita, sem ideia do que estava por vir naquela enfermaria. Não havia pensado em nada até aquele momento. Nada que me desesperasse (mais).
Não que eu esperasse tragédia, entenda. Minha visão sobre o câncer é desmistificada e acreditava na cura. Seguimos para o quarto, vimos os leitos e as pessoas que estavam ali. A cirurgia seria feita pelo SUS, a internação também era naquela ala. Confesso que eu treinei mentalmente como eu faria para passar por aquilo e pensava estar preparada.  A esse passo, crescia dentro de mim grande agonia: eu me percebi despreparada para lidar com a morte. Não com a dos outros, com um familiar meu. Com o cara que sempre foi meu tudo. Dali em diante pensamentos ruins atordoavam minha mente. "E se der alguma coisa errado?" "E se não conseguir tirar tudo" " E se precisar fazer mais do que uma intervenção cirúrgica?" "E se tiver complicação..." "E, se...."
Olhava para os lados e enxergava pessoas com semblante de esperança, medo, outras descrentes, pessoas muito piores e pessoas que estavam fora da capacidade médica de cura e que entendiam essa situação e se mostravam calmas.
Sentada na única cadeira que me cabia por direito, eu lia muito e as horas que antecediam a cirurgia foram de pesquisa. Queria encontrar na filosofia, algum alento para meu desespero psicológico. Estava indo na direção certa mas concluí que passar tanto tempo de minha vida blindada da ideia de finitude fez com que eu estivesse despreparada quando alguma assistência foi solicitada à pessoa que sempre lutou pra que minha vida fosse perfeita.

Freud, então, sussurrou em meus ouvidos, como quem humilha em tom irônico:


Nós criaturas civilizadas tendemos a ignorar a morte como parte da vida [...] no fundo ninguém acredita na própria morte, nem consegue imaginá-la. Uma convenção inexplícita faz tratar com reservas a morte do próximo. Enfatizamos sempre o acaso: acidente, infecção, etc., num esforço de subtrair o caráter necessário da morte. Essa desatenção empobrece a vida.”

Empobrece a vida”. Essa doeu, Freud.
Decididamente entender a morte enriquece a vida. Disso eu tive certeza. Descobri que pensar na morte ajuda a ser feliz porque nos auxilia a aproveitar cada momento e ver coisas por ângulos que não veríamos; mas eles não deixaram claro como fazer isso, portanto, não foram suficientes para acalmar a tempestade dentro de mim. Por que, meu Deus, ser nocauteada pelo pensamento de morte dilacerou tanto? Talvez porque só agora eu esteja lidando com a interpretação da morte, não com a mera doença em si, naquela enfermaria a morte ganhou nomes, sobrenomes, sentimentos. Eu ganhei histórias. Vivências.
Quando levaram meu pai para o bloco cirúrgico a despedida com beijo na testa dele foi muito chocante. Eu não sei descrever. Chorei bastante. Ele também. Meu irmão estava ali, minha mãe não. Nem o príncipe que aliviaria o medo e tudo o que eu estava sentindo...(...)
Duas horas de cirurgia pareceram um dia inteiro de espera.
Quando terminou o médico gentilmente conversou conosco dizendo que a principio tudo tinha transcorrido muito bem. Não vi mais meu pai.
Voltou para quarto 5 horas depois.
Eu, ja no quarto, à espera dele conversava com as pessoas. Com os pacientes e familiares.
Quem melhor que elas para falar da própria experiência, medo, finitude?

A morte não estava longe de mim; estava nos corredores, nos cantos, dentro de minha cabeça. Faltava apenas eu decodificar seus ensinamentos.
Conheci um senhor de 63 anos, com Leucemia Promielocítica Aguda recidivada resistente à quarta linha de tratamento e mesmo ao transplante de medula. Sua proposta médica era “ênfase em conforto”. Ele pedia pra ir para casa. Queria ir cuidar dos filhos e a esposa, mesmo sabendo o que isso significaria. Ao perguntar se era essa sua real intenção, ele me disse: “no final o que mais importa é a família. Passei tempo demais longe e me arrependo disso”. Entendi, dias depois, que ele sempre teve relação conturbada com a família e só no final todos se reconciliaram. Lição aprendida: é bom que reconheçamos (antes de ser tarde) a importância dos laços afetivos e da rede interpessoal baseada em família e amigos.
Andei pelos corredores nas madrugadas, não conseguia dormir, enxergava coisas que se quer eu imaginava que pudessem acontecer daquele jeito. Agachada em corredores chorei por me queixar diversas vezes da vida, de barriga cheia. E também chorei por perceber que o meu amor tinha sido descartado, que eu desejei que fosse eterno, de verdade nestes momentos da minha vida e quando eu mais precisei de uma prova de sua existência... não estava presente. Tinha me abandonado. Me questionei: Que amor era este?
Dias frios de inverno por dentro e por fora.
Mas a vida é aprendizado.
É experiência.
Os dias seguiram, saímos do hospital. Fizemos amizades. Alguns pacientes tiveram final feliz outros não. (...)
Um mês depois da cirurgia, meu avô, pai do meu pai, faleceu. Avançado em idade  mas estava relativamente bem. Terceira perda. Sensação de vazio.

O que eu aprendi com tudo isso?

A morte passa muito além da pieguice que faz muita gente olhar ela com banalidade. No hospital e com tudo que aconteceu este ano eu me entendi humana, parte de uma orquestra bonita que toca músicas inéditas.

Me vi questionando minhas escolhas, colocando mesquinharias em xeque. Eu mudei. Aprendi na dor. E espero que as pessoas resinifiquem suas vidas depois de passar experiências como estas.

Estamos diante do mistério da vida.

Devemos fazer os dias da nossa vida (e dos outros) melhores. Causar sofrimento é dilacerante demais pra quem sente, pra quem causa parece sem importância. Sofrer faz parte da vida mas devemos nos esforçar para minimizar estes momentos e encorajar-se para seguir adiante.
Não estou dizendo que seja fácil. Estou dizendo que não podemos desistir.

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Mulheres de bem, somos a pessoa que sempre fomos, (guardadas algumas alterações fisiológicas que o tempo insistiu em modificar, mas Murphy é bonzinho até...) com quem vocês convivem ou irão conviver através deste blog, só que não, não sabemos direito quem realmente somos... nem sabemos se queremos bem saber. Nos surpreendemos muito com nós mesmas. Como colocar em um perfil, alguma característica nossa, se mudamos o tempo inteiro? Dupla personalidade. Humor negro. Ironia. Lágrimas de saudade.Sorrisos de boas lembranças.Abraços de adeus. Mistura das cores, de dores ,de amores. Afiliadas do clube "Pessoas que só tomam no cu".Amamos a vida. Nossos animais. (não estamos só querendo parecer boazinhas, a gente é mesmo). Dizimistas da igreja católica. The Secrets é o que há. E vodka não há de faltar. Mas, mulherada de fé, nada do que contém essas mal digitadas linhas é utilmente aplicável, nem sequer inutilmente despejado.Confissões inaudíveis,teses de liquidificador e quem sabe demonstrações da nossa constante oscilação. Achegue-se, nada aqui morde.. Te damos Boas vindas,com um velho clichê: Nós avisamos... ;)
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