15 de dezembro de 2013


Sente-se e observe. Sinta-se à vontade para pegar a pipoca, mas não perca a concentração. O filme é sobre você, e nós estamos sentados na última fileira. É nesse instante que você sente que já esteve aqui antes. Mas não na minha companhia, e a estréia em cartaz era outra. Você vinha acompanhado de uma outra pessoa. Eu sei disso, eu estava aqui também, apesar de passar despercebido. Não, você não me ignorou. Você só pode ignorar alguém que você pode ver. Onde está ela? Você não sabe. Ou talvez saiba, mas não quer pensar a respeito. Pelo menos não agora, o seu filme já vai começar.
Nos trailers, ao invés de serem exibidos filmes futuros, estão mostrando filmes antigos, todos tendo você como protagonista. Não se anime, nenhum deles tem final feliz.
Todos são dramas, inclusive o atual. Eu sei disso, porque já o assisti. Então, meu caro amigo, ambos estamos tendo um déja vù aqui. Talvez esse último seja aclamado pelos críticos como uma obra-prima, para finalizar com louvores a série de filmes sobre você que antecederam este. Uma série de fracassos, mas o público gosta disso. Você esperava que o gênero dos filmes se tratasse de um romance, mas não é você quem decide isso. Sua roteirista não demonstrou piedade, e também não foi muito fiel ao livro de sua vida na qual foram baseados os filmes. Ah, é, tem o livro. Ele contém toda a sua história, e foi escrito por mim. Isso mesmo, por mim. Mas, acredite se quiser, eu não cheguei nem perto de ser tão cruel quanto à sua amiga, a roteirista. E mesmo assim, você sempre a trazia para este lugar aqui. Agora você percebe que errou, em tudo. Confiou demais, tentou agradar demais, tentou superar demais, tentou compensar demais, tentou ser outra pessoa demais. Você sabe de tudo isso tanto quanto eu, o autor do seu livro. Nunca escondi o fato de que o erro foi seu, diferente das mentiras de uma roteirista interessada na quebra de um acordo entre vocês dois. Você sabe que errou, e eu tentei impedí-lo disso. Você tentou o suicídio, mas cortou os pulsos na horizontal, quando deveria tê-los, na verdade, cortado na vertical. Você nutriu um ódio tão imenso dela, de mim, de tudo, até mesmo de você, principalmente de você, por não conseguir nem mesmo se matar.
E aí as luzes da matinê se acendem, mas não era o final do filme ainda. Na verdade, estão terminando de exibir os trailers, que você nunca tinha visto até então. É um feixe de luz avermelhada, repleta de ódio, forte, o suficiente para ofuscar sua visão, por muito tempo. Você viu que essa cegueira o fortalecia, aguçava os seus sentidos, e passou a gostar daquilo. Se sentiu no controle para escrever o roteiro do seu próximo filme, mas o seu último é esse que está sendo exibido agora, e eu já o assisti. Lamento acabar com suas expectativas, no entanto preciso dizer que ele não deu muito certo. Nesse exato momento, graças ao feixe de luz tenebroso, você não quer mais finais felizes. Na verdade você não quer mais nem ter um final. Apenas ser um paradoxo de ódio e vingança, infligindo o seu ódio em quem aparecer pela frente, do elenco, transformando todos em culpados por tudo o que deu errado nos seus outros filmes. Pode passar a ser um filme de ação, e isso por uma parte é até bom, mas com o tempo se torna entediante. Tanto pra você, quanto pra quem o assistir. A platéia também tem lugar no seu ódio crescente, mas eles apreciam sua desgraça por culpa sua. Você quer que eu termine o seu livro contando que você passou o resto da sua vida sentindo um ódio de tudo tão absurdo que o fez desaparecer? E que o seu ódio contaminou outras pessoas que nada tinham a ver com aquilo? Eu suponho que não. Isso pode um dia virar filme, e quem vai estar na primeira fileira para apreciar o espectáculo será sua antiga roteirista. Eu sei, você já quis acabar com a vida dela antes, logo depois de tentar acabar com a sua. Se eu fosse a favor dessa estupidez, diria a você que a ordem das mortes deveria ser contrária, afinal isso aqui não é um filme de terror, ficção ou essas porcarias do tipo. Você não voltaria do além para se vingar. Por sorte, não tentou matá-la, só sentiu o desejo. Não o culpo por isso, acredite. Sofri junto com você, a mesma dor que você. Por isso digo que tomou uma sábia decisão a partir dali, se esforçar pra esquecer. Esquecer do que já sentiu, não de seus erros. Seus erros serão úteis para o resto de sua vida, por isso fiz questão de escrevê-los. Mas existe algo que você deve esquecer: O ódio dela. Não é impossível. Outros tentaram e conseguiram, até mesmo mudar a história de seus filmes enquanto ainda estavam sendo exibidos, e se encontravam na mesma situação que você.
Você pode confiar em mim, e já lhe dei inúmeras provas disso. Você não sabia quem eu era, mas podia me escutar. Nem sempre deu ouvidos à minha voz, mas sempre pôde escutar aquilo que eu dizia. Por isso tudo, acredite: Ninguém está isento da justiça. Mais cedo ou mais tarde, neste universo paralelo ou em outro, testemunhando você ou não, ela virá. Não estou falando de vingança, como você espera que isso seja, e não se trata aqui de esperar por um prato que se come frio. Apenas a certeza de que os culpados um dia pagarão pelos seus erros, e isso também não se trata de maldição. É apenas a lei da retribuição, teoria do caos, princípio da penalização. Ao invés de nutrir o desejo de vingança, ou querer fazer justiça com as próprias mãos, sente-se e assista, o filme já vai começar.

- Espere, pensei que você havia dito que o meu filme não teria um final feliz.

- Mas quem disse que esse filme é seu? O filme é dela.

- Se o filme é dela, porque eu estou aparecendo ali? E quanto aos meus outros filmes? Onde estão? O que aconteceu? E o livro sobre mim que você escreveu?

- O seu filme? Estamos gravando agora, nesse exato momento, sentados nessas duas poltronas. Aquele filme que você iria assistir no começo da sessão era mesmo seu, mas o feixe de luz impediu que você o visse. Ele era uma porcaria, por isso sugiro que você faça um novo, e dessa vez seja seu próprio roteirista. Seus outros filmes ficarão guardados comigo, e asseguro-lhe de que não serão exibidos novamente. Eu vou ajudá-lo, como sempre o ajudei, serei o seu diretor até, e continuarei escrevendo seu livro, mas agora tenho que ir. Aproveite bem esse filme, apesar de ser outra porcaria. Mas acho que vai lhe proporcionar alguma satisfação, já que o final dela não é feliz. Quando quiser começar as gravações, é só me chamar.

- Mas como poderei encontrá-lo? Afinal de contas, quem é você?

- Quem eu sou? Você. Mas você deve me conhecer por outro nome: Consciência. A sua.

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Mulheres de bem, somos a pessoa que sempre fomos, (guardadas algumas alterações fisiológicas que o tempo insistiu em modificar, mas Murphy é bonzinho até...) com quem vocês convivem ou irão conviver através deste blog, só que não, não sabemos direito quem realmente somos... nem sabemos se queremos bem saber. Nos surpreendemos muito com nós mesmas. Como colocar em um perfil, alguma característica nossa, se mudamos o tempo inteiro? Dupla personalidade. Humor negro. Ironia. Lágrimas de saudade.Sorrisos de boas lembranças.Abraços de adeus. Mistura das cores, de dores ,de amores. Afiliadas do clube "Pessoas que só tomam no cu".Amamos a vida. Nossos animais. (não estamos só querendo parecer boazinhas, a gente é mesmo). Dizimistas da igreja católica. The Secrets é o que há. E vodka não há de faltar. Mas, mulherada de fé, nada do que contém essas mal digitadas linhas é utilmente aplicável, nem sequer inutilmente despejado.Confissões inaudíveis,teses de liquidificador e quem sabe demonstrações da nossa constante oscilação. Achegue-se, nada aqui morde.. Te damos Boas vindas,com um velho clichê: Nós avisamos... ;)
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